Paulista de 1996  escrito em quarta 12 dezembro 2007 18:59

paulista 1996

Palmeiras: O Maior Campeão do Profissionalismo

Diz um velho ditado que o futebol não tem lógica. De fato, muitas vezes o esporte mais popular do mundo pregou surpresas tão inimagináveis como dolorosas. Ninguém melhor para relatar o impacto de um resultado totalmente inesperado do que o próprio torcedor brasileiro. Afinal, a derrota de 1950 para o Uruguai, no Maracanã, parece imortalizada.

O inexplicável tropeço de 1992 diante dos italianos, na Espanha, também pode servir de munição para quem compartilha da tese de que no futebol tudo pode acontecer. Para isso, basta a bola estar rolando.

Mas será que essa história do eterno desacordo entre a bola e a lógica tem tanto sentido que dispensa uma melhor análise? Quem acompanhou o Campeonato Paulista de 1996 certamente vai responder não. Escorado numa estrutura de primeiro mundo, comandado sob alto rigor e dispondo de profissionais de primeiro time, o Palmeiras dismestificou a idéia de que no futebol não há espaço para a lógica. É verdade que em sua campanha sofreu um revés fora dos planos. Perdeu para o Guarani quando dava como certa um passo invicto rumo ao título. Por outro lado, confirmou ao final da competição o que estava escrito desde o início: que seria campeão. Em outras palavras, honrou a expectativa, confirmou as previsões e fortaleceu a lógica.

Mas o que levou o Palmeiras a um sucesso tão esperado quanto brilhante, capaz de compará-lo, até com algumas passadas de vantagem, ao Santos, de Pelé, vai além do que o toque refinado de Djalminha, a eficiência de Rivaldo, a versatilidade de Luizão. O Palmeiras só conquistou a lógica porque usou a cabeça. Enquanto adversários como São Paulo, que entre ataques verbais de seu presidente desfiava um rosário de desculpas e lamentos pela campanha inexpressiva, o Palmeiras se propunha a jogar futebol e mostrar que as vitórias se conquistam praticando, e não falando.

Foi assim, ancorado numa filosofia de sempre estar à frente, que o Palmeiras bateu praticamente todos os recordes de índice técnico na história do futebol paulista. Conduzido pelo dedo perfeccionista e pelo discurso eloquente do técnico Wanderley Luxemburgo, o palmeiras incorporou o estigma de vencedor assumindo por unanimidade a condição de melhor time do Brasil.

 

As razões que conduziram a equipe ao posto de sinônimo de qualidade total se explicam diante de uma saraivada de decisões certeiras. Respaldado pela Parmalat, o Palmeiras mostrou equilibrio, paciência e, sobretudo, competência para reverter um momento difícil, como o vivido em 1995, quando perdeu quatro competições.

Guiado pelo bom senso, pela sensibilidade e por um plano de metas milimetricamente moldado, o clube rasgatou sua credibilidade antes mesmo de o Campeonato Paulista de 1996 começar. O planejamento, aliás, foi um dos principais motivos pela recuperação do time. De olho no passado, os dirigentes palmeirenses evitaram, por exemplo, novos conflitos com os jogadores por causa de pagamentos de prêmios e vitórias. Estipularam valores antecipadamente, lastreados nas conquistas, e geraram motivação. Como retorno, receberam mais confiança e respeito.

Para não comprometer relações internas, o clube também mexeu no elenco. Sete meses depois da reformulação, com o título nas mãos, se tem a convicção de que o Palmeiras mexeu da forma mais correta. Trouxe experiência e prestigiou a juventude de gente como Amaral e Flávio Conceição. Investiu na permanência de Cléber e passou a abrigar outros dois zagueiros de nível de seleção, como Sandro e Cláudio.

O lateral Júnior, contratado sob o ar de incógnita, especialmente para os que torciam pela decadência do time palmeirense, confirmou que Luxemburgo estava certo. O ex-lateral do Vitória mostrou talento, garra e a cada dia tornava a mais remota lembrança de Roberto Carlos.

Se houve uma virtude que marcou a perfomance do Palmeiras por todo o campeonato, esta foi a homogeniedade. Independentemente dos desfalques, da falta de ritmo de um ou outro jogador, o time de Luxemburgo jamais escondeu a face de um grupo que soube conciliar no campo a força técnica. Assim foi, por exemplo, em momentos decisivos, como no primeiro turno, em que venceu todos os clássicos. Ou no segundo turno, quando recebeu o Santos no Palestra Itália e venceu por 2 a 0, assegurando o título por antecipação.


Ao contrário do que parte da imprensa dizia, este Palmeiras não é parecido com o São Paulo de Raí. Afinal, trata-se de um time que independe dos chamados âncoras. O Palmeiras encontra em Amaral, dentro da sua vitalidade, a mesma resposta que encontra em Rivaldo, dentro de seu talento.

Psicologia, seriedade, eficiência, vitalidade. O Palmeiras ofereceu à torcida no Paulista de 1996 um coquetel de prazeres para quem admira um bom futebol. Foram 102 gols, alguns feitos na base dos trancos e barrancos, mas a maioria com toques sutis, jogadas rápidas e conclusões infalíveis. A técnica palmeirense foi um fator decisivo na conquista do título. Não se pode dizer, porém, que foi o principal.

Apoiado em regras claras e objetivas, o Palmeiras se fortaleceu num trabalho psicológico notável, sempre comandado pelo treinador e rapidamente absorvido pelos atletas. Foi mexendo com a mente da equipe que, por exemplo, Luxemburgo conseguiu sustentar, pelo menos durante cinco rodadas, um índice de aproveitamento fantástico, que chegou a produzir médias superiores à quatro gols por partida.

A exemplo de uma grande empresa que atinge excelentes resultados financeiros e produtivos mas se torna alvo de retratação, o Palmeiras também foi desafiado pela própria fama de vencedor. Contudo, a união da equipe e a fidalidade à folclórica tese de que o jogo só termina quando acaba, os jogadores do Palmeiras se mantiveram concentrados durante todo o campeonato. Mesmo depois da derrota para o Guarani, a única na competição, o time jogou na rodada seguinte visivelmente tranquilo e não teve problemas para retomar os caminhos da vitória.


Com a mesma psicologia que fez o Palmeiras sustentar seu interesse permanente pelos três pontos, mesmo envolvido pela inevitável sensação de insuperável, Luxemburgo impôs ao elenco uma atmosfera de humildade. Valorizou jogadores menos badalados e extirpou qualquer principio de estrelismo. Sufocou, por exemplo, a insatisfação de Cláudio logo no começo do ano, quando perdeu a posição para Sandro. Estimulou Cafú a recuperar seu futebol que tanto ajudou na época de São Paulo. Fez de Cléber um zagueiro artilheiro. Deu a Djalminha o espaço necessário para mostrar toda sua habilidade, enquanto garantiu Luizão uma posição de ataque. Para completar, além de potencializar a capacidade de seus suplentes, Luxemburgo conseguiu provar o talento de Rivaldo, melhor jogador do Brasil em 1996.

O Palmeiras terminou o Campeonato Paulista acumulando seu vigésimo primeiro título da forma mais justa possível. Tudo por um simples motivo: a permanente preocupação em se aperfeiçoar.

 

Palmeiras: um time realmente destruidor!

No dia 28 de janeiro a bola começa a rolar pelo Campeonato Paulista. O Palmeiras apresenta à sua torcida suas armas. Uma festa no Palestra Itália e a primeira vítima foi a Ferroviária. Luizão marcou três, Djalminha, Muller e Paulo Isidoro completaram a goleada de 6 a 1 sobre o time de Araraquara.

Era o prenúncio de goleadas e um belo futebol, que seria comprovado com o desenrolar da competição.

Mesmo jogando em Mirassol, longe de casa, o Palmeiras manteve a hegemonia e meteu 7 a 1 no Novorizontino. A torcida se empolgava e na terceira rodada do Paulistão já comparecia em bom número ao Palestra Itália (20.351 pagantes) para assistir a vitória de 3 a 0 sobre o Mogi Mirim.

O único ponto perdido em 15 jogos no primeiro turno foi contra o União São João, em Araras, e se deveu ao erro do árbitro João Paulo Araújo, que invalidou um gol de Muller nos minutos finais da partida, alegando falta de Magrão no goleiro Adnam.

Mas o Palmeiras não se abateu e no jogo seguinte venceu o Juventus por 4 a 1. Um resultado importante pois o time teria pela frente três clássicos importantes contra São Paulo, Portuguesa e Corinthians, sendo que esta sequência seria interrompida em virtude do carnaval.

Mas o Palmeiras não parou. Venceu o São Paulo por 2 a 0 em São José do Rio Preto, deu apenas quatro dias de folga aos atletas e na segunda-feira de Carnaval pela manhã os jogadores e comissão técnica já estavam na estância hidromineral de Serra Negra ( à 160 Km da Capital ) para treinar visando à sequência do campeonato. Resultado: Portuguesa e Corinthians não foram páreo para o time de Luxemburgo e acabaram derrotados pelo mesmo placar: 3 a 1.

O bom desempenho nos clássicos trouxe maior confiança e tranquilidade, que foram essenciais para as vitórias de 3 a 1 contra o Guarani, 2 a 1 de virada frente o Araçatuba, em Araçatuba e 8 a 0 diante do Botafogo em pleno estádio "Santa Cruz".

Nos quatro jogos restantes, mais quatro goleadas. O Rio Branco perdeu de 4 a 1, o América de 6 a 0, em ambas partidas disputadas no Palestra Itália. O resultado mais significativo, porém, ocorreu na Vila Belmiro. O Santos, de Giovani & Cia., foi goleado por 6 a 0, ocasião em que Cléber, ao lado de Rivaldo, foi o grande artilheiro do jogo marcando dois gols cada. Este jogo também garantiu a conquista antecipada do primeiro turno, que valeu vaga para o quadrangular decisivo caso ele viesse a ser realizado. No último jogo, festa no Palestra e 4 a 0 diante do XV de Jaú.

Segundo turno

Previa-se maior dificuldade ao Palmeiras no segundo turno, pois se o time de Vanderlei Luxemburgo reeditasse a campanha da primeira fase seria campeão antecipadamente, não havendo necessidade da disputa do quadrangular.

Mas dentro do campo poucas alterações. Já no primeiro jogo, em Araraquara, goleada de 5 a 1 frente a Ferroviária e o campeão do primeiro turno mostrava que seria difícil vencê-lo. Na volta ao Parque, goleada de 4 a 0 sobre o Novorizontino e, na partida seguinte, em Mogi Mirim, um jogo difícil contra os donos da casa, mas vitória de virada por 2 a 1.

Dois outros resultados elásticos na sequência da competição foram importantes para a disputa dos clássicos. O Palmeiras fez 5 a 0 no União São João e depois 5 a 1 no Juventus, em partida disputada em Jundiaí. Após o jogo, nova retirada para Serra Negra para a terceira e última fase de preparação para a etapa final da competição. Os três classícos trouxeram dificuldades. Diante do São Paulo, vitória por 3 a 2 e um desentendimento entre Luxemburgo e o meia Djalminha, que não gostou de ser substituído. Na partida contra a Portuguesa, no Canindé, 2 a 1 graças à um gol maravilhoso de Cléber e diante do Corinthians, em São José do Rio Preto, o segundo ponto perdido na competição: empate em 2 a 2, com um gol de falta de Marcelinho no último minuto.

A única derrota do Palmeiras ao longo da competição ocorreu em Campinas, no estádio Brinco de Ouro da Princesa, no dia 09 de maio. O Guarani venceu por 1 a 0 com gol de cabeça do goleiro Silvio. Apenas um susto nos torcedores, mas que não abalou as estruturas do time. A partir daí, o Palmeiras só colecionou vitórias: 3 a 1 contra o Araçatuba, 2 a 1 frente o Rio Branco, 4 a 0 diante do Botafogo e 1 a 0 contra o América.

No jogo que valia o título, o palmeiras precisava apenas de um empate contra o Santos. O Palestra Itália foi palco da festa do torcedor palmeirense, que viu sua equipe vencer o Santos por 2 a 0, gols de Luizão e Cléber, e conquistar de maneira antecipada o título regional. No jogo seguinte, que serviu para entrega das faixas, vitória por 1 a 0 diante do XV de Jaú.

Ao todo foram 30 jogos, sendo 27 vitórias, 2 empates e somente uma derrota. O ataque marcou 102 gols (média de 3,4 gols por jogo) e a defesa sofreu 19 (média de 0,69). O Palmeiras totalizou 83 pontos ganhos e somente 7 perdidos.

O artilheiro da equipe foi Luizão (22 gols), seguido por Rivaldo (18), Djalminha e Muller (15), Cléber (7), Elivélton (6), Júnior e Cláudio (3), Alex Alves, Sandro, Cafú e Paulo Isidoro (2) e Cris, Galeano, Osio, Gustabo e Célio Silva (contra) (1 cada).

 

Palmeiras 2 x 0 Santos

Local: Palestra Itália
Data: 02/06/1996
Árbitro: Oscar Ruiz
Renda: -
Público: Não divulgado

 

Palmeiras: Velloso; Cafú, Sandro, Cléber e Júnior. Galeano, Amaral, Rivaldo e Djalminha; Muller e Luizão

Santos : Edinho; Cláudio, Sandro, Narciso e Marcos Adriano; Gallo, Baiano, Jamelli e Robert; Macedo e Giovanni

 

Gols: Luizão, aos 6 minutos do primeiro tempo e Cléber aos 23 do segundo tempo.

 

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Todos os comentários desse artigo:
Paulista de 1996

  • eduardo

    Dom 08 Nov 2009 22:43

    timaço esse ai era uma verdadeira seleção

  • Eduardo

    Ter 27 Out 2009 02:11

    so uma correção na derrota para o Guarani por 1x0 o gol do Guarani foi marcado pelo centro-avante Silvio,que não tinha nada de goleiro.o goleiro que veio a marcar contra o Palmeiras foi Hiran no empate por 3x3 em 1997.

  • Halisson Augusto

    Sáb 11 Jul 2009 00:13

    esse foi o ano que eu nasci,como eu queria ter nascido um pouquinho antes pra ver esse timaço jogar!

  • Halisson Augusto

    Sáb 11 Jul 2009 00:12

    esse foi o ano que eu nasci,como eu queria ter nascido um pouquinho antes pra ver esse timaço jogar!

  • pedro augusto da rocha

    Sáb 28 Mar 2009 17:04

    igual a este palmeiras so de 1972

  • Diano Massarani

    Qui 11 Dez 2008 00:33

    Fala aí rapaziada! Quero aproveitar este excelente texto, sobre este excelente time para lançar uma enquete: Este time foi melhor do que o Palmeiras bicampeão brasileiro 93/94? E lembremos que este time também foi alvo da "caixinha de surpresas" que é o futebol. Afinal, na Copa do Brasil deu o Cruzeiro de Palhinha. Abraço para todos!!!

  • Eclison Tolentino

    Dom 07 Dez 2008 14:07

    ... e além do Paulista, o que é que esse time ganhou?

  • Erivan Leal

    Seg 29 Set 2008 00:55

    Este time considero seleção, nunca veremos outra equipe igual, espero que agora o Palmeiras não se desmonte e mantem a equipe para conquistar o mundo.

  • ANDERSON DE MAUÁ mailto

    Qui 29 Mai 2008 18:53

    iGUAL AO TIME DE 1996, SOMENTE O BRASIL DE 70 MAIS NÃO PODEMOS ESQUECER QUE ESSE FOI APENAS MAIS UM GRANDE TIME QUE A ACADEMIA MONTOU NO PASSAR DOS ANOS OU SEJA NASCEU PARA MONTAR GRANDES SELEÇÕES........

  • Diego

    Seg 31 Mar 2008 06:14

    simplismente expetacular! Esse time foi FANTÁSTICO