
Diz um velho ditado que o futebol não tem lógica. De fato, muitas vezes o esporte mais popular do mundo pregou surpresas tão inimagináveis como dolorosas. Ninguém melhor para relatar o impacto de um resultado totalmente inesperado do que o próprio torcedor brasileiro. Afinal, a derrota de 1950 para o Uruguai, no Maracanã, parece imortalizada.
O inexplicável tropeço de 1992 diante dos italianos, na Espanha, também pode servir de munição para quem compartilha da tese de que no futebol tudo pode acontecer. Para isso, basta a bola estar rolando.
Mas será que essa história do eterno desacordo entre a bola e a lógica tem tanto sentido que dispensa uma melhor análise? Quem acompanhou o Campeonato Paulista de 1996 certamente vai responder não. Escorado numa estrutura de primeiro mundo, comandado sob alto rigor e dispondo de profissionais de primeiro time, o Palmeiras dismestificou a idéia de que no futebol não há espaço para a lógica. É verdade que em sua campanha sofreu um revés fora dos planos. Perdeu para o Guarani quando dava como certa um passo invicto rumo ao título. Por outro lado, confirmou ao final da competição o que estava escrito desde o início: que seria campeão. Em outras palavras, honrou a expectativa, confirmou as previsões e fortaleceu a lógica.
Mas o que levou o Palmeiras a um sucesso tão
esperado quanto brilhante, capaz de compará-lo, até
com algumas passadas de vantagem, ao Santos, de Pelé, vai
além do que o toque refinado de Djalminha, a
eficiência de Rivaldo, a versatilidade de Luizão. O
Palmeiras só conquistou a lógica porque usou a
cabeça. Enquanto adversários como São Paulo,
que entre ataques verbais de seu presidente desfiava um
rosário de desculpas e lamentos pela campanha inexpressiva,
o Palmeiras se propunha a jogar futebol e mostrar que as
vitórias se conquistam praticando, e não
falando.
Foi assim, ancorado numa filosofia de sempre estar à frente, que o Palmeiras bateu praticamente todos os recordes de índice técnico na história do futebol paulista. Conduzido pelo dedo perfeccionista e pelo discurso eloquente do técnico Wanderley Luxemburgo, o palmeiras incorporou o estigma de vencedor assumindo por unanimidade a condição de melhor time do Brasil.
As razões que conduziram a equipe ao posto de sinônimo de qualidade total se explicam diante de uma saraivada de decisões certeiras. Respaldado pela Parmalat, o Palmeiras mostrou equilibrio, paciência e, sobretudo, competência para reverter um momento difícil, como o vivido em 1995, quando perdeu quatro competições.
Guiado pelo bom senso, pela sensibilidade e por um plano de metas milimetricamente moldado, o clube rasgatou sua credibilidade antes mesmo de o Campeonato Paulista de 1996 começar. O planejamento, aliás, foi um dos principais motivos pela recuperação do time. De olho no passado, os dirigentes palmeirenses evitaram, por exemplo, novos conflitos com os jogadores por causa de pagamentos de prêmios e vitórias. Estipularam valores antecipadamente, lastreados nas conquistas, e geraram motivação. Como retorno, receberam mais confiança e respeito.
Para não comprometer relações internas, o clube também mexeu no elenco. Sete meses depois da reformulação, com o título nas mãos, se tem a convicção de que o Palmeiras mexeu da forma mais correta. Trouxe experiência e prestigiou a juventude de gente como Amaral e Flávio Conceição. Investiu na permanência de Cléber e passou a abrigar outros dois zagueiros de nível de seleção, como Sandro e Cláudio.
O lateral Júnior, contratado sob o ar de
incógnita, especialmente para os que torciam pela
decadência do time palmeirense, confirmou que Luxemburgo
estava certo. O ex-lateral do Vitória mostrou talento, garra
e a cada dia tornava a mais remota lembrança de Roberto
Carlos.
Se houve uma virtude que marcou a perfomance do Palmeiras por todo o campeonato, esta foi a homogeniedade. Independentemente dos desfalques, da falta de ritmo de um ou outro jogador, o time de Luxemburgo jamais escondeu a face de um grupo que soube conciliar no campo a força técnica. Assim foi, por exemplo, em momentos decisivos, como no primeiro turno, em que venceu todos os clássicos. Ou no segundo turno, quando recebeu o Santos no Palestra Itália e venceu por 2 a 0, assegurando o título por antecipação.
Ao contrário do que parte da imprensa dizia, este Palmeiras
não é parecido com o São Paulo de Raí.
Afinal, trata-se de um time que independe dos chamados
âncoras. O Palmeiras encontra em Amaral, dentro da sua
vitalidade, a mesma resposta que encontra em Rivaldo, dentro de seu
talento.
Psicologia, seriedade, eficiência, vitalidade. O Palmeiras ofereceu à torcida no Paulista de 1996 um coquetel de prazeres para quem admira um bom futebol. Foram 102 gols, alguns feitos na base dos trancos e barrancos, mas a maioria com toques sutis, jogadas rápidas e conclusões infalíveis. A técnica palmeirense foi um fator decisivo na conquista do título. Não se pode dizer, porém, que foi o principal.
Apoiado em regras claras e objetivas, o Palmeiras se fortaleceu num trabalho psicológico notável, sempre comandado pelo treinador e rapidamente absorvido pelos atletas. Foi mexendo com a mente da equipe que, por exemplo, Luxemburgo conseguiu sustentar, pelo menos durante cinco rodadas, um índice de aproveitamento fantástico, que chegou a produzir médias superiores à quatro gols por partida.
A exemplo de uma grande empresa que atinge excelentes
resultados financeiros e produtivos mas se torna alvo de
retratação, o Palmeiras também foi desafiado
pela própria fama de vencedor. Contudo, a união da
equipe e a fidalidade à folclórica tese de que o jogo
só termina quando acaba, os jogadores do Palmeiras se
mantiveram concentrados durante todo o campeonato. Mesmo depois da
derrota para o Guarani, a única na competição,
o time jogou na rodada seguinte visivelmente tranquilo e não
teve problemas para retomar os caminhos da
vitória.
Com a mesma psicologia que fez o Palmeiras sustentar seu interesse
permanente pelos três pontos, mesmo envolvido pela
inevitável sensação de insuperável,
Luxemburgo impôs ao elenco uma atmosfera de humildade.
Valorizou jogadores menos badalados e extirpou qualquer principio
de estrelismo. Sufocou, por exemplo, a insatisfação
de Cláudio logo no começo do ano, quando perdeu a
posição para Sandro. Estimulou Cafú a
recuperar seu futebol que tanto ajudou na época de
São Paulo. Fez de Cléber um zagueiro artilheiro. Deu
a Djalminha o espaço necessário para mostrar toda sua
habilidade, enquanto garantiu Luizão uma
posição de ataque. Para completar, além de
potencializar a capacidade de seus suplentes, Luxemburgo conseguiu
provar o talento de Rivaldo, melhor jogador do Brasil em
1996.
O Palmeiras terminou o Campeonato Paulista acumulando seu vigésimo primeiro título da forma mais justa possível. Tudo por um simples motivo: a permanente preocupação em se aperfeiçoar.
Palmeiras: um time realmente destruidor!

No dia 28 de janeiro a bola começa a rolar pelo Campeonato Paulista. O Palmeiras apresenta à sua torcida suas armas. Uma festa no Palestra Itália e a primeira vítima foi a Ferroviária. Luizão marcou três, Djalminha, Muller e Paulo Isidoro completaram a goleada de 6 a 1 sobre o time de Araraquara.
Era o prenúncio de goleadas e um belo futebol, que seria comprovado com o desenrolar da competição.
Mesmo jogando em Mirassol, longe de casa, o Palmeiras manteve a hegemonia e meteu 7 a 1 no Novorizontino. A torcida se empolgava e na terceira rodada do Paulistão já comparecia em bom número ao Palestra Itália (20.351 pagantes) para assistir a vitória de 3 a 0 sobre o Mogi Mirim.
O único ponto perdido em 15 jogos no primeiro turno foi contra o União São João, em Araras, e se deveu ao erro do árbitro João Paulo Araújo, que invalidou um gol de Muller nos minutos finais da partida, alegando falta de Magrão no goleiro Adnam.
Mas o Palmeiras não se abateu e no jogo seguinte venceu o Juventus por 4 a 1. Um resultado importante pois o time teria pela frente três clássicos importantes contra São Paulo, Portuguesa e Corinthians, sendo que esta sequência seria interrompida em virtude do carnaval.
Mas o Palmeiras não parou. Venceu o São Paulo por 2 a 0 em São José do Rio Preto, deu apenas quatro dias de folga aos atletas e na segunda-feira de Carnaval pela manhã os jogadores e comissão técnica já estavam na estância hidromineral de Serra Negra ( à 160 Km da Capital ) para treinar visando à sequência do campeonato. Resultado: Portuguesa e Corinthians não foram páreo para o time de Luxemburgo e acabaram derrotados pelo mesmo placar: 3 a 1.
O bom desempenho nos clássicos trouxe maior confiança e tranquilidade, que foram essenciais para as vitórias de 3 a 1 contra o Guarani, 2 a 1 de virada frente o Araçatuba, em Araçatuba e 8 a 0 diante do Botafogo em pleno estádio "Santa Cruz".
Nos quatro jogos restantes, mais quatro goleadas. O Rio Branco perdeu de 4 a 1, o América de 6 a 0, em ambas partidas disputadas no Palestra Itália. O resultado mais significativo, porém, ocorreu na Vila Belmiro. O Santos, de Giovani & Cia., foi goleado por 6 a 0, ocasião em que Cléber, ao lado de Rivaldo, foi o grande artilheiro do jogo marcando dois gols cada. Este jogo também garantiu a conquista antecipada do primeiro turno, que valeu vaga para o quadrangular decisivo caso ele viesse a ser realizado. No último jogo, festa no Palestra e 4 a 0 diante do XV de Jaú.
Segundo turno
Previa-se maior dificuldade ao Palmeiras no segundo turno, pois se o time de Vanderlei Luxemburgo reeditasse a campanha da primeira fase seria campeão antecipadamente, não havendo necessidade da disputa do quadrangular.
Mas dentro do campo poucas alterações. Já no primeiro jogo, em Araraquara, goleada de 5 a 1 frente a Ferroviária e o campeão do primeiro turno mostrava que seria difícil vencê-lo. Na volta ao Parque, goleada de 4 a 0 sobre o Novorizontino e, na partida seguinte, em Mogi Mirim, um jogo difícil contra os donos da casa, mas vitória de virada por 2 a 1.
Dois outros resultados elásticos na sequência da competição foram importantes para a disputa dos clássicos. O Palmeiras fez 5 a 0 no União São João e depois 5 a 1 no Juventus, em partida disputada em Jundiaí. Após o jogo, nova retirada para Serra Negra para a terceira e última fase de preparação para a etapa final da competição. Os três classícos trouxeram dificuldades. Diante do São Paulo, vitória por 3 a 2 e um desentendimento entre Luxemburgo e o meia Djalminha, que não gostou de ser substituído. Na partida contra a Portuguesa, no Canindé, 2 a 1 graças à um gol maravilhoso de Cléber e diante do Corinthians, em São José do Rio Preto, o segundo ponto perdido na competição: empate em 2 a 2, com um gol de falta de Marcelinho no último minuto.
A única derrota do Palmeiras ao longo da competição ocorreu em Campinas, no estádio Brinco de Ouro da Princesa, no dia 09 de maio. O Guarani venceu por 1 a 0 com gol de cabeça do goleiro Silvio. Apenas um susto nos torcedores, mas que não abalou as estruturas do time. A partir daí, o Palmeiras só colecionou vitórias: 3 a 1 contra o Araçatuba, 2 a 1 frente o Rio Branco, 4 a 0 diante do Botafogo e 1 a 0 contra o América.
No jogo que valia o título, o palmeiras precisava apenas de um empate contra o Santos. O Palestra Itália foi palco da festa do torcedor palmeirense, que viu sua equipe vencer o Santos por 2 a 0, gols de Luizão e Cléber, e conquistar de maneira antecipada o título regional. No jogo seguinte, que serviu para entrega das faixas, vitória por 1 a 0 diante do XV de Jaú.
Ao todo foram 30 jogos, sendo 27 vitórias, 2 empates e somente uma derrota. O ataque marcou 102 gols (média de 3,4 gols por jogo) e a defesa sofreu 19 (média de 0,69). O Palmeiras totalizou 83 pontos ganhos e somente 7 perdidos.
O artilheiro da equipe foi Luizão (22 gols), seguido por Rivaldo (18), Djalminha e Muller (15), Cléber (7), Elivélton (6), Júnior e Cláudio (3), Alex Alves, Sandro, Cafú e Paulo Isidoro (2) e Cris, Galeano, Osio, Gustabo e Célio Silva (contra) (1 cada).
Palmeiras 2 x 0 Santos
Local: Palestra Itália
Data: 02/06/1996
Árbitro: Oscar Ruiz
Renda: -
Público: Não divulgado
Palmeiras: Velloso; Cafú, Sandro, Cléber e Júnior. Galeano, Amaral, Rivaldo e Djalminha; Muller e Luizão
Santos : Edinho; Cláudio, Sandro, Narciso e Marcos Adriano; Gallo, Baiano, Jamelli e Robert; Macedo e Giovanni
Gols: Luizão, aos 6 minutos do primeiro tempo e Cléber aos 23 do segundo tempo.




eduardo
Dom 08 Nov 2009 22:43